terça-feira, 23 de junho de 2009

carol desabitada dos olhos.

quem me conhece às risadas largas, ágil e ativa, quase que hiperativa, correndo a vida qual pequenino vulcão, me desconheceria desprovida dos olhos. desconhecí-me eu mesma em mim mesma. vivendo a vida qual vivo, qual vivo, assim, sempre irrompendo meu cotidiano e à rua e a rua me torcendo do pé ao ânus à boca ao fio de cabelo em mudança de cor e comprimento... como poderia supor que o simplesmente de por uma venda nos meus olhos e não usá-los por vinte e quatro horas desabitaria de mim uma Carol que me assegurava como um ser-completo-eu... essa Carol-liberta de afetos intensos, pois, revelou-se também mascara, personalidade construida com a qual me defendo de meus próprios movimentos, proteção relacional de uma Carol que não tenho como conhecer... pois que ela se move, e só posso conhecê-la a cada passo.

Tapar os olhos me quebrou. Quebrei-me. Em caco feita... não vários cacos... mas um pequenino caco apenas, perdida de toda minha intensidade corpo, de toda a expansividade explosiva que se move a olhos esternos, toda a intensidade revertida para dentro do peito, pequenino caco de vidro na escuridão virei.

Num de repente, não propunha mais nada a vida. A vida que propunha a vida em mim. Eu não podia controlar nada e nem dimensionar como deveria ser esse me ver nesse caminhar inseguro a passos miuditos e temerosos. Sem vontade de falar. Sem vontade de estar no meio de muita gente... querendo a calma de um tempo escorrido, para apenas conversar comigo ali no meu dentro, o olho virado para o imenso mundo descontrolado e disforme desses afetos íntimos e silenciosos. Afinal, o tudo dissolvido nessa massa amorfa tempo e cheiro e forma e som mesclados numa só coisa-acontecência (era impossível dissociar uma coisa da outra), me dava a sensação de estar flutuando no nada.

(era também impossível criar objetivos e colocar sentidos fixos nas coisas)

(o mesmo travesseiro que gentilmente se mantinha no lugar e me oferecia colo, se caísse me oferecia obstáculo e eu caia tropeçando nele... e eis que o travesseiro nunca se oferecia enquanto unívoco e travesseiro... ele era o que ele ocorria em mim... e as vezes ocorria em mim qual colo e as vezes ocorria em mim qual rasteira)

(dormir e acordar não se separavam de fato em acontecimento, pois que o olho não se abria para destinguir estados, então que eu vivia nos dois, sonho e vida acordada também mesclavam-se na grande massa-vida em acontecimento)
Destituir cada segundo de um sentido para além dele mesmo, retirou de mim qualquer certeza, meu corpo enmiudou e tinha medo de sair para fora do portão. Porque, afinal, eu não poderia ter controle de como a vida aconteceria em mim e como o dentro de mim aconteceria em relação a como a vida aconteceria em mim e a sensação era de que eu podia morrer um segundo depois apenas por não ver um buraco que aconteceria num de repente a frente do meu pé. ou uma mão que aconteceria num de repente no meu pescoço. ou uma dentada que aconteceria num de repente na minha coxa. ou um nada que aconteceria e eu ficaria imersa na solidão da inatividade.

E tudo era muito. Muito. Porque não era eu que pedia o tudo. Não era eu que conduzia uma situação de afeto ou rancor dos outros em relação a mim... Então que se me rejeitavam era sempre um susto... Então que se me protegiam e cuidavam era sempre um susto... Então que se eu num dentro de mim sentia o que faziam comigo como rejeição ou afeto, era sempre um susto. Impossibilitada da certeza, cansava o cada segundo, pois que a vida sempre e sempre se ofertava ou como presente ou como murro.

(escorreram-se lágrimas do olho posto em descanço pelo afeto nítido do cão em minhas pernas)


Apenas num vendar de olhos a vida como esse grande nada do qual a oferta não se escolhe do qual o passo não oferece objetivo se abriu e me mostrou minha pequenina fragilidade incompetente. que em verdade não desesiste quando me desvendo. é que vendada não posso mentir a mim qualquer controle sobre meus passos.

e isso, de existir ininterruptamente correndo sempre o risco de que se interrompa também esse existir a qualquer momento, isso de a vida descontroladamente continuar acontecendo independente do seus objetivos, isso de a vida acontecer em você, sempre e sempre nova e descontrolada, sem parar sem parar sem parar... e isso de que você não pode impedir que a vida siga sua massa acontecência e que em verdade o segundo seguinte é já uma nova inaugurada vida e você uma nova inaugurada coisa e os outros e tudo também... isso apavora. apavora o corpo eficiente.

que isso de ser pequenino e de entender-se assim e não entender-se poderoso e enorme, isso de ser pequenino é permitir que a vida atravesse como surpresa e permitir o rebatismo a cada esquina ou dobra de joelho... é abrir o corpo a rasteira, seja de gozo ou de dor profunda. E é difícil aceitar esse tanto. apenas abrir o corpo a vida... é tarefa de matéria quase louca... fluxo contrário da vida que se pede aprisionada.

desconfiada de mim desde esse instante peço da vida junto com ela suas surpresas de agora ser diferente de agora e diferente de agora... desabotôo (e abotôo de novo em seqüencia, é difícil abrir mão do inequívoco) a precisão de minhas escolhas e grito em silêncio o escorrer de minha matéria pelos bueiros do existir; sabendo de que sou burra em de novo pintar objetivos e sabendo que a vida por nada é muito.
(encerro a digressão. e rebatizo a carol que agora enxurrou pensamentos, para outra que caminhará para outra vida, para além dos teclados, da tela, desse quarto e dessa porta)

Um comentário:

cego de um olho disse...

Desabite e viva, viva o que não encharga e sente.Sentimos e colocamos os olhos a diante a medo em enchergar a ponta do nariz.
Desejamos a cegueira provisória.
Mas a cegueira (verdadeira) essa é feita do desejo nos lábios, mãos, pele som/silêncio. Fique cega de 2 em 2 meses desabite o corpo feito de certeza encontre no escuro o prazer de não saber o proximo passo, de rolar, cair, levantar e ser tocada.

CEGO DE UM OLHO.
SOS